Breaking news: ataque terrorista em Manchester

Ontem às 21h35 (hora GMT Londres) um ataque suicida com bomba de fabricação caseira matou 22 pessoas (entre adolescentes e crianças) e deixou mais de 59 feridos. No Manchester Arena. Em Manchester. Na cidade onde moro.

Segue um resumo do que se sabe até o momento e como está o clima por aqui:
– Há poucos minutos o EI (estado Islâmico) reivindicou a autoria do ataque;
– Um homem de 23 anos foi preso; A polícia não divulga a identidade;
– Os feridos foram encaminhados para os 7 hospitais da região;
– Telefones de emergência e redes sociais ajudam a localizar pessoas ainda desaparecidas;
– Cidade em alerta; Polícia pedindo que população evite centro da cidade e aglomerações;
– Moradores próximos à area da explosão ajudaram pessoas que saíam do show com água, lugar para passar a noite e carregar celulares;
– A Victoria Station, principal estação de trem e Metrolink, está fechada;
– Engarrafamentos em todos os grandes acessos da cidade;
Rádios, TVs e redes sociais atualizando as notícias a todo instante;
– Helicópteros seguem sobrevoando a cidade;

Eu e minha família estamos bem. Tentando manter a normalidade. Esse tipo de ameaça pra nós, acostumados a viver sitiados pela violência banalizada no Brasil, ainda era algo relativamente distante e complexa de entender. Agora é fato. Real e perto da gente.

E no meio do caos, reconfortante receber mensagens e ligações de amigos e familiares aqui da Europa, Canadá e do Brasil perguntando como estávamos. De uma certa forma, me senti bem. Dentro do que se pode estar em situações onde o medo e desconfiança de repente estampam nosso dia, tingindo de cinza e sangue um raro dia de sol em Manchester.

NHS: o SUS (é) daqui

Na última sexta-feira dia 12 um ciberataque de grandes proporções afetou entidades em mais de 100 países. Aqui no Reino Unido a instituição mais comprometida foi o NHS. Milhões de serviços e pessoas foram afetados. Neste post escrevo sobre o sistema de saúde britânico.

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Manifestações pró NHS (John Gomez/shutterstock)

O National Health Service surgiu durante o pós-guerra. Na época, a iniciativa do governo finalmente reconhecia a assistência médica como um dos cinco grandes problemas a serem enfrentados em um continente em reconstrução (além da carência, ignorância, miséria e preguiça). O lançamento aconteceu em julho de 1948 no Park Hospital, em Manchester.

Desde sua fundação, muita controvérsia. Originalmente, o NHS deveria ser totalmente gratuito e assim foi durante muitos anos. Mas aos poucos novas taxas foram fixadas e novos limites de tratamento. Por outro lado houve grande investimento em pesquisa científica e mudanças na forma de atendimento aos pacientes. Para se ter uma ideia, até 1954 crianças internadas em hospitais só recebiam visita dos pais por uma hora aos sábados… E o resto é história.

Aqui alguns detalhes (experiências) que ilustram o funcionamento do NHS:
– Para ter acesso, as pessoas devem se registrar no posto de saúde mais próximo de sua casa;
– Primeiro passo: agendar consulta com o GP (general practice), ou clínico geral;
– Normalmemte a marcação de consulta ocorre no mesmo dia ou em no máximo 2;
– Não há agendamento direto com especialista sem consulta prévia com o GP;
– O valor fixo dos remédio com receita médica é £8,60;
– A maioria dos medicamentos de uso contínuo é gratuita;
– Todos os medicamentos para crianças (0 a 16 anos) e pessoas a partir de 60 anos são gratuitos;
– As instalações, consultórios e equipamentos são de boa qualidade;
– Para quem está em viagem em países da Europa, o NHS oferece cobertura gratuita para diversos tipos de atentimento médico;
– Dentista: planos de atendimento dentário também são oferecidos pelo NHS mas neste caso, apenas subsidiados pelo governo. Os preços seguem uma tabela entre £20,60, £56,30 e £244,30, conforme a complexidade do tratamento. Crianças e estudantes são isentos;

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Sala de espera da clínica dermatológica onde estive semana passada – lwg

O grande mal do NHS hoje é que está gigantesco, obeso. Com alto custo. E por conta disso vem enfrentando uma série de dificuldades e cortes de orçamento. Não raro vemos manifestações ou lemos artigos alertando para o atual desmantelamento do NHS, falta de leitos em hospitais e greve dos profissionais da área de saúde. Sem falar que cerca de 11% do quadro médico do NHS é formado por cidadãos europeus que, com o Brexit, teriam que deixar seus postos. Crise de saúde como em qualquer lugar. Que tal?

 * Somente tenho acesso ao NHS pois meu visto de residência está ligado à cidadania europeia. Como brasileira, não teria direito.
* O SUS (Sistema Único de Saúde) adotado no Brasil em 1988 foi inspirado no NHS do UK. Era para funcionar.

A cara do Reino

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                                                                                          (Bruce Gilden/Magnun Photos)

Strange and Familiar: Britain as revealed by international photographers é a mostra do momento aqui na cidade (em cartaz até 29 de maio na Manchester Art Gallery). A exposição é um retrato do cotidiano britânico através da lente de renomados fotógrafos e fotojornalistas ao longo do século XX, como Henry Cartier-Bresson, Paul Strand, Evelyn Hofer e Bruce Gilden. 

São rostos, paisagens, personagens, famosos, anônimos, tristeza, esperança. Identidade e cultura. Mas, sobretudo, história através do olhar, talento e sensibilidade. Os registros vão do conflito entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte aos festivais de música na Inglaterra, pobreza em Glasgow (Escócia), protestos, celebrações, monarquia, anarquia, democracia.

Muito bacana. E se pintar por lá, vale estender a visita às demais atrações da galeria. Simples respirARTE. Que tal?

* A MAG fica no centro de Manchester (M2 3JL). Horário de funcionamento: segunda a domingo das 10h às 17h; quintas das 10h às 21h. A entrada é franca.